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Expedição de Saúde Alcança Ribeirinhos Isolados no Rio Madeira

Expedição de Saúde Alcança Ribeirinhos Isolados no Rio Madeira

Expedição de Saúde Alcança Ribeirinhos Isolados no Rio Madeira

Em maio, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Calama, distrito de Porto Velho (RO), tornou-se ponto de encontro para centenas de ribeirinhos. Eles aguardavam a chegada da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania, que ofereceu atendimento em diversas especialidades médicas e sociais, superando as barreiras de acesso à saúde que marcam a vida dessas comunidades.

Na sua sexta edição, a iniciativa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Conhecimento de Excelência da Amazônia Ocidental e Oriental (INCT-CONEXAO), em parceria com a faculdade Afya São Lucas, levou serviços essenciais a áreas remotas. Mais de 100 estudantes, professores e pesquisadores embarcaram para realizar ações focadas em saúde, educação e cidadania, percorrendo o Rio Madeira na região do Baixo Madeira.

A expedição visitou comunidades como Calama, Nazaré e São Carlos. Em Calama, a maior localidade com cerca de 2,3 mil habitantes, o barco atracou nos dois primeiros dias, proporcionando atendimento direto à população. Para muitos, como a agricultora Vânia Caetano dos Reis, de 52 anos, o acesso ao atendimento exigiu longas e árduas jornadas, incluindo mais de duas horas de barco e duas horas a cavalo por uma estrada de 12 km.

Vânia já havia buscado atendimento no dia anterior para consultas com clínico geral, odontologia e oftalmologista. Ela ressaltou a dificuldade de acesso, pois para chegar a Calama de sua comunidade, Gleba Rio Preto, precisou sair de casa à meia-noite. A falta de especialistas na região torna esses eventos cruciais, especialmente para exames de vista, que foram os mais procurados, com mais de 200 atendimentos realizados e a doação de 300 óculos de grau em parceria com uma ótica local.

Edna Miranda de Sousa, 52 anos, moradora da comunidade São Francisco, levou sua neta Bianca Sousa de Castro, 5 anos, para avaliação médica. A comunidade de Edna possui apenas uma escola de ensino fundamental, sem posto de saúde. Bianca reclamava de dores e coceiras nos olhos, além de pequenas manchas e verrugas nas pálpebras, demonstrando a necessidade de acompanhamento pediátrico e oftalmológico.

O pró-reitor de Pós-Graduação da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, explicou que a operação foi estruturada para atender a demanda espontânea, com triagem inicial para identificar necessidades. Os pacientes eram direcionados para atendimento médico, enfermagem, oftalmologia, biomedicina, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, educação física e área jurídica. A faculdade disponibilizou equipamentos como cadeiras odontológicas e instrumentos para exames oculares e laboratoriais, com resultados rápidos para alguns exames.

O pequeno Azafi Pitangui, morador de Calama, expressou sua satisfação com o atendimento odontológico para tratamento de cárie e limpeza dental, demonstrando entusiasmo com a experiência. Estudantes como Jonatas Ponce, de odontologia, viram na expedição uma oportunidade de aprendizado e contato com a realidade desafiadora das comunidades, onde o acesso a itens básicos como escovas de dente e água fluoretada é limitado.

A vastidão territorial de Porto Velho, com 34.090,952 km², agrava o desafio do deslocamento para as comunidades ribeirinhas. A distância em linha reta entre a sede administrativa e Calama ultrapassa os 200 km, com o transporte fluvial sendo a principal via, levando de nove a 15 horas. Uma alternativa envolve viajar até Humaitá (AM) e depois pegar uma embarcação para subir o Rio Madeira, uma viagem que pode levar cerca de hora e meia.

Durante o trajeto fluvial, é comum observar pequenas comunidades isoladas e grandes balsas transportando produtos do agronegócio, além de dragas de garimpo ilegal. Essa realidade evidencia o gargalo logístico enfrentado pela população. Luiz Antônio Prado, venezuelano de 32 anos, residente em Glebas, comunidade próxima a Calama, relatou a dificuldade em buscar atendimento em emergências, dependendo de embarcações e da disponibilidade de ‘motoristas’.

Luiz Antônio buscou atendimento para taquicardia, acompanhado de sua filha Gorete Maria Prado, 15 anos, que é diabética. Gorete teve sua glicose, que estava acima de 600, estabilizada e recebeu orientações médicas. Em muitos casos, o destino mais próximo para atendimento é o município amazonense de Humaitá, em vez do centro de Porto Velho.

A expedição também realizou atendimentos domiciliares para pessoas com dificuldade de locomoção. Manoel Dourado da Silva, ex-seringueiro de 88 anos, vítima de AVC, recebeu atendimento em sua residência. Ele sofre de dificuldades motoras no lado direito do corpo, inchaço nos pés, pressão alta, problemas de audição e diabetes. Sua filha, Maria Aires, que cuida dele, destacou a importância do acompanhamento médico domiciliar devido à impossibilidade de locomoção.

O médico e professor da Afya São Lucas, Gabriel Aurélio de Paiva, que comandou a equipe de saúde, confirmou que os atendimentos revelaram uma alta incidência de hipertensão e diabetes entre os ribeirinhos. Para os estudantes, a expedição representou uma valiosa oportunidade de vivenciar o ‘mundo real’, saindo da ‘bolha’ acadêmica para compreender e atender às necessidades de populações em realidades desafiadoras.

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