Pai conversa com filho sobre respeito a meninas
O combate à misoginia começa pelo exemplo dentro de casa, especialmente na atuação dos pais. Profissionais que estudam masculinidade saudável apontam a educação afetiva e a conversa aberta como ferramentas essenciais para criar meninos mais conscientes e respeitosos. Em um contexto de crescentes violências e discursos de ódio, a intervenção paterna no presente pode ser uma medida preventiva fundamental.
A psicóloga Bárbara Lobato, de Brasília, observa um aumento no número de pais atentos a essa questão, ressaltando que a construção do respeito é um processo cotidiano. Ela enfatiza a importância de os homens saberem identificar e comunicar suas próprias dores para transmitir mensagens positivas aos filhos, promovendo o diálogo e a conexão. Em casos de negligência afetiva ou social, é crucial acolher o sentimento do adolescente e compreender sua angústia.
A escola também desempenha um papel vital nesse processo. A professora Ana Paula Lilly, de Bauru (SP), alerta que discursos misóginos chegam aos adolescentes por meio de grupos de mensagens. Ela defende a parceria entre família e escola, com mensagens coerentes sobre respeito, igualdade e responsabilidade. Em situações de violência, a escola deve chamar os pais ou responsáveis para intervir.
Em São Paulo, o canal de vídeos Papicast foi criado por pais para discutir paternidade e oferecer apoio mútuo. Um dos fundadores, Tiago Koch, defende a imposição de limites em relação ao corpo e destaca que muitos garotos estão ‘pedindo ajuda em silêncio’ sobre como se relacionar com meninas. Ele aponta que o machismo estrutural está presente na vida dos meninos e que eles precisam do apoio dos pais para compreender melhor o mundo, fugindo de estereótipos violentos ou hipersexualizados.
Os integrantes do Papicast defendem a ampliação de direitos dos pais, como a licença paternidade, e a criação de materiais educativos. Eles observam que as meninas reconhecem mais rapidamente demonstrações de machismo e cobram uma postura diferente dos rapazes. Quando as meninas expressam suas percepções, a reação dos meninos pode se transformar em ressentimento, ódio e violência, sem que eles compreendam o motivo.
O terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), decidiu tratar dos traumas masculinos após vivenciar e internalizar mensagens machistas em casa, como a de que ‘homem deve engolir o choro’. Ele percebeu padrões machistas em si mesmo e, com o nascimento dos filhos, compreendeu a importância de chorar para mostrar vulnerabilidade e autorizar os filhos a fazerem o mesmo. Romper o silêncio e desconstruir mensagens machistas são passos essenciais para combater a misoginia.

