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Desertificação Ameaça Solo Brasileiro e Segurança Hídrica

Desertificação Ameaça Solo Brasileiro e Segurança Hídrica

Desertificação Ameaça Solo Brasileiro e Segurança Hídrica

Cerca de 39 milhões de brasileiros residem em áreas sob ameaça de desertificação, um fenômeno que abrange sertanejos, agricultores, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros. O termo, embora possa soar estranho por não haver desertos como o Atacama ou o Saara no Brasil, refere-se à degradação ambiental de terras produtivas que perdem a capacidade de reter água e sustentar vida. Essa perda de vitalidade é impulsionada por atividades humanas, como desmatamento e práticas agrícolas inadequadas, além de variações climáticas. À medida que o processo avança, o risco de uma região se transformar em um deserto aumenta significativamente.

Conforme o boletim mais recente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), aproximadamente 18% do território brasileiro é classificado como Área Suscetível à Desertificação (ASD). Representantes da sociedade civil e do governo brasileiro discutirão obstáculos e soluções para este problema na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada na Mongólia de 17 a 28 de agosto. A coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Ivi Aliana, ressalta que as populações mais vulneráveis e as comunidades tradicionais são as primeiras a sentir os efeitos da degradação da terra, pois dependem diretamente dos recursos hídricos e da biodiversidade local.

A degradação da terra, contudo, transcende quem vive diretamente em suas áreas afetadas. Entre 2000 e 2020, a extensão do território brasileiro impactada pela desertificação cresceu de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados, um acréscimo de 170 mil km², equivalente à soma dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. O fenômeno se concentra nos nove estados do Nordeste, mas também se estende ao norte de Minas Gerais, ao Espírito Santo, ao nordeste do Rio de Janeiro e ao noroeste do Mato Grosso do Sul. Nessas regiões, predominam climas subúmido seco, semiárido e árido, classificados por índices de aridez que variam entre 0,05 e 0,65. A primeira região árida do país, com 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia, foi identificada em 2023.

O bioma Caatinga enfrenta os níveis mais críticos de deterioração do solo, com 11% de sua área em situação crítica e severa, o que corresponde a 100 mil km², e com 42,6% de sua vegetação nativa já suprimida. Proteger a Caatinga é crucial para a biodiversidade, as populações locais e o clima. O pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), Aldrin Martin Pérez-Marín, destaca que a Caatinga tem uma eficiência de sequestro de carbono de 58%, superior a outros biomas brasileiros, e armazena 72% desse carbono no solo, funcionando como um cofre natural. Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment, em 2025, confirmou que a Caatinga foi responsável por cerca de 50% do sequestro líquido de carbono do Brasil em 2022, compensando emissões nacionais de gases de efeito estufa.

O Brasil, signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) desde 1997, lançou em março de 2026 o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043). Este plano estabelece o enfrentamento da desertificação como política pública integrada. Em junho deste ano, foi lançado o Programa Recaatingar, com a meta de recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas da Caatinga nos próximos 20 anos, promovendo segurança hídrica, restauração socioprodutiva e adaptação às mudanças climáticas com base no conhecimento tradicional das comunidades locais. Essa metodologia, já comprovada anteriormente pelo Insa, resultou em 36 mil hectares conservados e 2 mil hectares em recuperação ativa, além de sistemas agroflorestais que aumentam a biomassa e retêm solo, e barragens subterrâneas que restauram água e fertilidade.

A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), com mais de 30 anos de atuação e composta por mais de 3 mil organizações, desenvolve programas de captação de água da chuva, construção de cisternas e barragens para garantir água potável e para produção. A ASA também atua no fortalecimento de sementes adaptadas e técnicas agrícolas que respeitam a biodiversidade. A Agência Brasil cobrirá a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia, como parte de uma parceria com a UNCCD. Uma série de matérias será publicada detalhando a conferência e seus impactos no Brasil, focando na importância de territórios vivos e na preservação da Caatinga como parte da solução para a crise climática global.

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