Mestres da Cultura Popular Encantam Brasília com Tradição e Arte
A expressão “Alumiar em vida” traduz o significado de assumir a coroa de rainha do congado do Maçambique de Osório, manifestação cultural da comunidade quilombola do Morro Alto, no litoral norte do Rio Grande do Sul. A mestra Francisca Dias, de 65 anos, conhecida como Rainha Ginga Preta, e outros 19 músicos do quilombo se apresentaram no Conic, em Brasília, no Encontro de Mestres da Cultura Popular.
Francisca Dias explica que o maçambique é uma congada gaúcha, de tradição de matriz africana bantu, mantida na região desde o século 19. “São as mesmas roupas e músicas desde sempre”, afirma. A manutenção da tradição, arte, fé e memória une diferentes faixas etárias, de crianças a idosos, em uma aliança de resistência. A comunidade produz seus próprios instrumentos, como tambores e a maçacaia, um cestinho de taquara com sementes de caetés que marca o ritmo.
A congada abrange música de salão, de rua e de igreja, enaltecendo a imagem de Nossa Senhora do Rosário. A fé católica e a arte se unem para combater preconceitos, incluindo o racismo, com as crianças sendo preparadas para se defenderem com palavras. Francisca Dias expressa sua emoção em levar a tradição de sua comunidade à capital federal, sonhando em expandir sua cultura pelo Brasil e combatendo a estranheza de alguns ao presenciarem a presença de pessoas negras no Rio Grande do Sul.
O encontro em Brasília, que contou com artistas de 11 estados e do Distrito Federal, tem como objetivos dar visibilidade à multiplicidade de manifestações culturais, ir na contramão de preconceitos e formar novos públicos. O curador Anderson Formiga ressalta a formação de um mosaico cultural que, embora predominantemente negro, também incorpora origens europeias e indígenas. O evento inclui apresentações e oficinas, com a intenção de encantar os jovens e garantir a continuidade das tradições pelos herdeiros mais novos.
A comunidade gaúcha do maçambique segue rigorosamente o respeito às tradições, com a rainha Francisca Dias tendo como maior desejo honrar seus ancestrais, especialmente sua mãe, Severina Dias, a última rainha. A celebração do maçambique deste ano ocorrerá em 24 de setembro. Tião Carvalho, mestre e músico maranhense de 71 anos, também participa do evento, buscando valorização da cultura tradicional brasileira e políticas públicas que garantam espaço para esses artistas, destacando que os jovens se interessam pela cultura quando a conhecem.

