Geleiras instáveis: Nepal em alerta após colapso e chuvas contínuas
A região montanhosa do Nepal permanece em alerta elevado devido à continuidade das chuvas desde o desastre de 26 de agosto. Especialistas do Centro Internacional de Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD) indicam risco de novos deslizamentos, inundações e avalanches. Embora novas enchentes não sejam iminentes, a criosfera na área de Kiyrong-Rasuwa sofreu alterações significativas com o colapso da geleira do pico Langtang Lirung.
A formação de lagos em altitudes elevadas e o impacto ainda desconhecido sobre outras geleiras próximas são consequências diretas do abalo secundário causado pelo desastre de agosto. Houve uma queda rápida de sedimentos de 5 mil para 2 mil metros de altura, transformando o vale do rio Lhende Khola em uma área de lama e detritos, que ganhou destaque na mídia há duas semanas.
Especialistas consultados pela Agência Brasil apontam a necessidade de monitoramento conjunto como preocupação primordial diante da possibilidade de novos desastres. É crucial observar rochas, gelo de glaciares, paredes íngremes dos vales, bloqueios temporários de rios e o grande volume de sedimentos soltos ao longo do vale.
Segundo Sher Muhammad, pesquisador sênior do ICIMOD, análises preliminares com dados de satélite foram suficientes para reconstruir a origem e o trajeto da cascata. Dois trabalhos iniciais buscam analisar os colapsos, mas ainda aguardam revisão por pares. Muhammad ressalta a necessidade de confirmar dados antes de comparar cenários de Chimodi e Rasuwa, com a hipótese de colapso na ligação entre rocha e glaciar como a mais aceita internacionalmente.
Jefferson Simões, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT Criosfera) e professor da UFRS, explica que a piora climática pode reduzir a aderência entre o glaciar e a rocha, acumulando água e quebrando as rochas. Ele compara o evento a outros já conhecidos em montanhas íngremes, mas destaca que o registro filmado diferencia este caso. Um evento similar no Peru, em Yungay, resultou na morte de cerca de 20 mil pessoas.
Simões menciona que o Instituto Nacional de Geleiras e Ecossistemas de Montanha do Peru monitora quase 60 geleiras de diferentes graus de risco. Ele descreve o arraste de água, gelo, lama e rocha em vales glaciais íngremes. A água de derretimento geralmente forma lagoas na frente da geleira, e o governo nepalês monitora dois desses lagos na região de Rasuwa, que estiveram perto do ponto de extravasamento recentemente.
Apesar de autoridades e da ONU destacarem o perigo do aquecimento global para as geleiras, Simões e Muhammad afirmam que ainda não há elementos suficientes para atribuir exclusivamente o desastre de Rasuwa a esse fenômeno. Muhammad pondera que, embora o aquecimento afete o gelo no Himalaia e a estabilidade das montanhas, não se pode afirmar que seja a causa direta do colapso.
O especialista paquistanês enfatiza a importância do mapeamento e acompanhamento contínuos das condições locais. Embora colapsos naturais sejam impossíveis de impedir, suas consequências podem ser reduzidas com melhor monitoramento, uso mais adequado das terras em áreas de risco e estratégias de aviso precoce e evacuação. Isso inclui monitoramento sistemático por satélite de geleiras e encostas, seguido por observação intensa dos pontos críticos com câmeras e sensores.
Para Muhammad, a principal lição do colapso de agosto é que o monitoramento isolado de geleiras, encostas e rios não é mais suficiente. É necessário um acompanhamento integrado para prevenir desastres futuros.

