Pais veem palmada como disciplina, Unicef alerta sobre violência
Um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que pais e cuidadores ainda veem a palmada como uma forma de disciplina, e não como violência. A pesquisa, divulgada nesta quinta-feira (24), ouviu 214 pessoas em regiões vulneráveis do Rio de Janeiro, Recife e Manaus.
O estudo buscou identificar os motivos que levam pais e cuidadores a agredir crianças, especialmente na primeira infância (até 6 anos). Segundo o levantamento, a alegação comum é que a palmada serve para “disciplinar” os filhos. Um pai no Rio de Janeiro exemplificou: “Existe uma forma de bater educando, que foi a que eu fui criado. E existe o espancamento mesmo.”
Apesar de leis como a “Lei da Palmada” (Lei Menino Bernardo), que existe há 12 anos e integra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a pesquisa indica que a legislação é pouco conhecida pelas famílias e interpretada a partir de normas sociais que ainda legitimam a violência como método educativo.
Uma das conclusões da pesquisa é a falta de repertório dos pais para disciplinar sem recorrer à violência, resultando em ações impulsivas seguidas de arrependimento. O Unicef também identificou falta de capacitação dos profissionais da rede de proteção para orientar as famílias e dificuldade para que serviços públicos alcancem quem mais precisa.
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano passado foram registrados mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes no Brasil, um aumento de 106% em relação a 2024.
O Unicef recomenda o fortalecimento da prevenção da violência, com apoio a profissionais da rede de proteção, e campanhas que ensinem a estabelecer limites sem violência, dialogando com as realidades dos territórios mais vulneráveis.
Especialistas alertam que crianças na primeira infância estão em intenso desenvolvimento cognitivo e emocional, com o cérebro ainda imaturo para autorregulação. A psicóloga infantil Mara Gomes explica que a agressão pode levar a sinais de submissão ou agressividade, e a pedagoga Marília Paiva ressalta que a palmada não educa e gera medo.
A psicóloga Mara Gomes enfatiza a importância de trabalhar a autorregulação emocional nas crianças, acolhendo e colocando limites com conversas honestas. A pedagoga Marília Paiva sugere quatro passos para lidar com conflitos: autorregulação do adulto, acolhimento do sentimento da criança, estabelecimento de limites claros e, por fim, o ensino, quando a criança estiver receptiva.

