Senegal e Brasil buscam protagonismo no Sul Global
Dacar, a capital do Senegal, com quase 4 milhões de habitantes em sua região metropolitana, situa-se a 2,9 mil quilômetros do Brasil, sendo o ponto mais próximo das Américas no continente africano. A cidade sediou o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, um evento de dois dias que reuniu chefes de Estado e representantes de 38 países, sendo 18 africanos, além de integrantes de dez organismos internacionais como a ONU e a União Europeia. O Brasil foi representado pela embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.
Em seu discurso na cerimônia de abertura, o presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, definiu Dacar como uma capital de diálogo estratégico africano e internacional, um “espaço de reflexão e troca sobre caminhos para desenvolver soluções endógenas para os desafios de segurança do continente”. O encontro teve como objetivo diagnosticar desafios, debater temas e propor soluções para a África, além de reforçar o protagonismo do Senegal, reconhecido como um dos países mais estáveis do continente. Com quase 19 milhões de habitantes, o país busca expandir sua influência internacional em parceria com o Sul Global, bloco do qual o Brasil também almeja ser expoente.
Leonardo Santos Simão, diplomata e chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, destacou a história de desenvolvimento da paz e estabilidade no Senegal, sem precedentes de golpes de Estado, em contraste com momentos “conturbados” na África devido a conflitos internos, regionais, terrorismo e crime organizado. O Sahel, em particular, é apontado como epicentro do terrorismo internacional, com o Índice de Terrorismo Global de 2026 indicando que a região responde por mais da metade das mortes globais por terrorismo em 2025, concentradas em Mali, Burkina Faso e Níger. Outras nações da região incluem Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.
Simão ressaltou que o Senegal, por meio do fórum, oferece um espaço de troca de ideias para enfrentar desafios contemporâneos, atraindo representantes de países fora da África. Ele enfatizou que o Senegal faz parte de uma aglutinação internacional defendida pelo Brasil, o Sul Global, um grupo de nações em desenvolvimento que compartilham problemas sociais. “Este Sul está cada vez mais unido”, afirmou, destacando que o Senegal está alinhado com o Brasil e outros países do Sul em trazer a voz global do Sul para encontrar soluções para a pobreza e a exclusão. A soberania dos países africanos é um imperativo, e o diplomata sugere que as relações com o Norte Global precisam ser revistas, abandonando os modelos do passado.
O professor moçambicano Carlos Lucas Mamboza, especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, considera o fórum um “instrumento claro” de soft power, visando projetar a imagem de um Estado estável, com capacidade institucional e de mediação de conflitos no Sahel e na África. O tema do fórum de 2026, “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”, reflete um dilema enfrentado pelos Estados africanos, abordando também mudanças climáticas, pandemias, criminalidade transnacional, cibersegurança e assuntos tecnológicos, indicando um esforço para se posicionar de forma autônoma na definição de prioridades estratégicas.
Mamboza também destacou a fase diplomática do Senegal voltada para a América do Sul e o Brasil, sendo o país integrante da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas). Ele mencionou interesses conjuntos, como a defesa de reformas na governança global, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, onde nenhum país africano ou sul-americano possui assento permanente com poder de veto, ao contrário de Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França. A cooperação Sul-Sul visa defender esses pleitos, buscando maior representatividade para o Sul Global.
O protagonismo senegalês foi reconhecido por Richard Michaels, subsecretário adjunto do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que saudou “uma nova fase de liderança africana” com atores nacionais e regionais à frente dos desafios do continente. Michaels afirmou que os EUA estão redefinindo sua relação com parceiros africanos com base em comércio mutuamente benéfico e demonstraram interesse em participar da cadeia de exploração de minerais críticos, essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética. Os EUA buscam construir cadeias de suprimentos seguras e transparentes, garantindo que os países africanos capturem mais valor de seus recursos naturais.
