Empresários da ditadura possuíam origem em famílias escravistas
Um levantamento realizado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) revelou que, dos 62 empresários citados no relatório final por colaborarem com a ditadura militar, pelo menos 40 possuem raízes em famílias de senhores de escravos. A pesquisa genealógica foi detalhada no episódio Como Nossos Pais, do podcast Perdas e Danos.
Entre os sobrenomes destacados no relatório estão a família Guinle de Paula Machado, a família Batista Figueiredo, a família Beltrão e a família Vidigal. Segundo o pesquisador Ricardo Oliveira, essas linhagens representam um núcleo duro da classe dominante tradicional no Brasil, que mantém seu poder desde o período colonial.
Especialistas como Edson Teles e Marco Antônio Rocha apontam que o regime militar promoveu um modelo econômico focado na extração, que prejudicou gravemente os trabalhadores. Dados indicam que, entre 1960 e 1972, a concentração de renda aumentou significativamente, enquanto o poder de compra do salário mínimo caiu pela metade nos dois anos seguintes ao golpe.
O caso da família Bueno Vidigal, proprietária da Cobrasma e do Banco Mercantil, ilustra a relação entre tradição escravista e apoio ao regime. Registros do século XIX confirmam a prática escravista por parte dos antepassados da família, enquanto, durante a ditadura, a Cobrasma foi palco de repressão, incluindo a prisão de 400 trabalhadores na greve de Osasco em 1968.
Empresas como o Banco Mercantil também foram identificadas como financiadoras da Operação Bandeirantes (OBAN) e do sistema DOI-CODI, braços da repressão militar. Apesar das investigações e do histórico exposto, a assessoria do Banco Paulista e representantes da Cobrasma não responderam aos questionamentos sobre a origem da riqueza do clã e o apoio ao regime ditatorial.
