DNA Ambiental Mapeia Fauna Marinha na Bahia
Uma nova fase do projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), idealizado pelo Instituto Tecnológico da Vale (ITV), está em andamento para identificar espécies da fauna marinha. A iniciativa utiliza amostras de água coletadas em reservas extrativistas no sul da Bahia e emprega a técnica de DNA Ambiental metabarcoding, que permite a identificação simultânea de múltiplas espécies a partir de vestígios genéticos encontrados no ambiente.
A pesquisa é coordenada pelo Centro Tamar/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em colaboração com as Reservas Extrativistas (RESEXs) de Corumbau e Cassurubá. Segundo Amely Branquinho Martins, coordenadora do GBB pelo ICMBio, a técnica de DNA Ambiental baseia-se na coleta de amostras ambientais (água, solo, ar) e no sequenciamento do DNA deixado por organismos para identificar todas as espécies que passaram pelo local.
A técnica já é utilizada internacionalmente, e o GBB busca avaliar sua eficácia em comparação com métodos tradicionais para o monitoramento da biodiversidade em unidades de conservação federais. No projeto-piloto no sul da Bahia, foram coletadas amostras de água do mar em 20 pontos na Reserva Extrativista de Corumbau e em dez pontos nas áreas estuarina e marinha da Reserva Extrativista de Cassurubá. A escolha dos pontos considerou espécies de interesse, locais de pesca e extrativismo, áreas de conservação de espécies ameaçadas e a possível ocorrência de espécies exóticas invasoras.
As amostras, recolhidas em março, passaram por filtragem e conservação antes de serem enviadas ao laboratório do ITV em Belém (PA) para extração, análise e sequenciamento do DNA. Além de mapear a fauna marinha, o projeto visa detectar espécies ameaçadas, exóticas e invasoras. Entre os animais a serem mapeados estão peixes e invertebrados de interesse social e econômico, espécies ameaçadas como budiões, alvos de pescaria como peixes recifais, camarões, moluscos e caranguejo-uçá, além de espécies exóticas invasoras como o peixe-leão e o coral sol.
Uma das principais vantagens do DNA Ambiental é a identificação simultânea de múltiplas espécies sem a necessidade de captura dos organismos, tornando-o uma abordagem não invasiva e complementar aos métodos tradicionais. Essa técnica pode superar limitações dos métodos convencionais, permitindo o registro de espécies raras ou elusivas com menor esforço e tempo. A coleta de amostras ambientais (água, solo, ar) é simples e não exige conhecimento específico, apenas o seguimento de um protocolo.
O projeto GBB, iniciado em 2023, é a maior iniciativa de sequenciamento genômico da biodiversidade do Brasil, com o objetivo de gerar dados genéticos e genômicos de espécies ameaçadas, exóticas, endêmicas ou de interesse econômico. O mapeamento visa apoiar a conservação e o uso sustentável da biodiversidade brasileira. O GBB opera com dois eixos principais: genômica para conservação de espécies e código de barras (geração de marcadores genéticos e DNA Ambiental metabarcoding).
Até o momento, o GBB gerou mais de 40 genomas de referência, com a meta de alcançar 80 espécies da biodiversidade brasileira, com foco em espécies ameaçadas. Genomas de referência como os da onça, arara-azul, anta, ararajuba, queixada e açaí já foram gerados. Além disso, 613 espécies foram sequenciadas para código de barras e 479 amostras ambientais por meio de DNA Ambiental, cada uma capaz de identificar uma diversidade de animais. Os dados genéticos e genômicos subsidiam processos institucionais do ICMBio voltados para a conservação da biodiversidade e testam o uso do DNA Ambiental para o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade.
Os genomas também podem contribuir para o melhoramento genético e para a compreensão de como as espécies lidaram com mudanças climáticas históricas, oferecendo bases para adaptação futura. A análise genômica pode revelar quais populações sofreram e se adaptaram a eventos como a Era do Gelo e como essas adaptações passadas poderiam ser usadas para enfrentar as mudanças climáticas futuras. Iniciativas similares, como o resgate evolutivo de plantas na Europa, já identificam partes adaptativas de genomas, como resistência à seca, para propiciar cruzamentos que espalhem essas características.
Após ser desenvolvido na Amazônia e focado em ecossistemas marinho-costeiros, o GBB planeja expandir suas ações para os biomas Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. Os resultados do projeto podem ser consultados na plataforma GenRefBR.
