Guerras e cortes na saúde agravam surto de Ebola no Congo
A persistência de conflitos armados no Leste da República Democrática do Congo (RDC) e a diminuição da cooperação internacional em saúde têm sido fatores cruciais para a disseminação do atual surto de ebola na África. A doença ressurge em um cenário de escassez de profissionais de saúde na região afetada, com o epicentro na província de Ituri, que concentra 93% dos 676 casos confirmados no país, seguida por Kivu do Norte e Kivu do Sul. A região, a quase 2 mil quilômetros da capital Kinshasa, é palco de disputas por cerca de 100 grupos paramilitares que almejam o controle de atividades minerais, forçando milhões de pessoas ao deslocamento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve o surto como um desenvolvimento em um contexto humanitário complexo e de conflitos, marcado por populações de alta mobilidade e deslocamento frequente. Nuno Carlos de Fragoso Vidal, professor de história da África na UFRJ, aponta que a área marginalizada do Congo, sob influência de Ruanda, que financia o grupo paramilitar M23, é onde o surto se originou. A dificuldade de acesso a áreas controladas por grupos hostis e a ineficácia de acordos de paz anteriores, como o mediado pelo ex-presidente dos EUA Donald Trump em junho de 2025, dificultam a resposta.
Vidal sugere que a ambição do presidente de Ruanda, Paul Kagame, de controlar vastos recursos regionais, com apoio ocidental, especialmente da Inglaterra, contribui para a apropriação indevida de bens congoleses. Além da RDC, Uganda também registra casos, epidemiologicamente ligados à transmissão originada no Congo. A saída dos Estados Unidos da OMS, anteriormente o maior doador, e a redução drástica de sua ajuda internacional – de US$ 1,41 bilhão em 2024 para US$ 0,14 bilhão em 2026 – agravaram a situação. Embora os EUA se apresentem como principal doador individual com US$ 338 milhões, a mudança para cooperação bilateral em detrimento de estruturas multilaterais como a OMS gera incertezas, segundo Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco.
Natalia Fingermann, coordenadora do Nenaf da ESPM, ressalta que as alterações nos canais de cooperação internacional obscurecem a aplicação dos recursos, citando a demora na transferência de fundos americanos para o CDC da África. A escassez de insumos para testes de ebola em laboratórios na RDC e o aumento dos gastos com defesa por potências europeias, incentivado pelos EUA, que elevaram seus investimentos de 2% para 5% do PIB, também são entraves. Apesar de a União Europeia ter anunciado € 15 milhões em assistência adicional, a União Africana e a OMS solicitam US$ 517 milhões para os próximos seis meses para conter a expansão do vírus.
O CDC África destaca a falta de profissionais como epidemiologistas e especialistas de laboratório como um problema central. As prioridades incluem a ampliação de testes diagnósticos rápidos e a melhoria do acesso humanitário com coordenação civil-militar. Segundo Nuno Vidal, surtos de ebola em solo africano raramente atraem o interesse internacional proporcional, a menos que haja risco de disseminação global. Até 10 de junho, a RDC registrava 676 casos confirmados e 136 mortes, enquanto Uganda contabilizava 19 casos e dois óbitos, sem novos registros nos últimos seis dias, com 37 recuperados nos dois países.
