Arthur Muhlenberg: Crônica esportiva e a alma rubro-negra
A crônica esportiva brasileira, com sua tradição e grandeza, exige ser uma catapulta para o futuro, não uma âncora no passado. O gênero sobreviveu a tentativas de ser rotulado como algo menor, impulsionado por grandes nomes que desafiaram limites quando a intelectualidade considerava o futebol um assunto indigno de literatura.
Gigantes como Nelson Rodrigues, Mário Filho e José Lins do Rego, este último pioneiro na escrita sobre futebol, transformaram o esporte em literatura. José Lins do Rego, com sua genialidade e a leveza exigida pela crônica, trouxe humor, subjetividade e um olhar singular sobre o cotidiano.
É lamentável que sua obra seja esquecida em tempos de busca por cliques, e mais ainda que rubro-negros desconheçam seus textos sobre a essência do Flamengo. Um trecho da crônica “O Flamengo”, de 15 de novembro de 1951, revela a paixão de José Lins do Rego: “Mais um ano do meu querido Flamengo. Amo-o como um dos mais ardentes amores de minha vida…”.
Após 1957, ano da morte de José Lins do Rego, outros contaram as glórias do Flamengo em verso e prosa. Até que surgiu Arthur Muhlenberg, uma força da natureza que reviveu o encanto e a genialidade da crônica, concentrando-os na alma rubro-negra com o Urublog.
Muhlenberg foi mais que um cronista espetacular; ele era alguém que gostava de gente, com a cara do Rio e do Flamengo. Sua resenha era sofisticada pela simplicidade, engraçada sem esforço, repleta de histórias surreais, desde parcerias com Bob Dylan até jornadas gloriosas com o time.
Suas mensagens no WhatsApp, geniais em poucas linhas, transformavam o que poderia ser nonsense em espetáculo. Suas ideias loucas, como tornar a língua do TTK o idioma oficial da nação rubro-negra e a urgência do Flamengo em voltar para si, demonstravam sua visão única.
Discípulo do realismo mágico, mas especialmente de Zico, Muhlenberg nunca perdeu a indignação com o Flamengo elitizado ou com os retrocessos do Brasil. Sua última mensagem, “Rumo à nossa Tóquio espiritual”, encapsula a força poética e o amor incondicional por um rubro-negro que só ele poderia expressar.
