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Ana Maria Gonçalves debate racismo e literatura no Brasil

Ana Maria Gonçalves debate racismo e literatura no Brasil

Ana Maria Gonçalves debate racismo e literatura no Brasil

A escritora Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), defende que a literatura produzida por autores negros é fundamental para explicar a permanência histórica do racismo no Brasil e para disputar o sentido da narrativa nacional. Em conversa com a Agência Brasil, ela destacou a importância de obras como seu romance “Um Defeito de Cor” para a compreensão social do racismo e o fortalecimento de debates sobre políticas de cotas raciais.

Gonçalves afirmou que livros de autores negros ajudam o povo brasileiro a entender a necessidade das cotas, um tema que, segundo ela, foi por muito tempo tabu na sociedade. Seu romance “Um Defeito de Cor”, com 952 páginas, narra a saga de Kehinde, uma mulher negra escravizada no Brasil. A obra é considerada um marco na literatura brasileira contemporânea e inspirou o samba-enredo da Portela em 2024, evidenciando como essas narrativas trazem perspectivas historicamente marginalizadas.

A autora rejeita o rótulo de “contra-história” para descrever sua obra, argumentando que “Um Defeito de Cor” é a história do Brasil contada sob a perspectiva de uma mulher negra, buscando ocupar o mesmo espaço da história oficial, tradicionalmente narrada pelo olhar de homens brancos. Ela também ressaltou que sua eleição para a ABL, como a 13ª mulher e primeira mulher preta na academia, é fruto de uma luta coletiva, mencionando a influência de candidaturas anteriores e a necessidade de representatividade étnica.

Durante sua participação no Festival Latinidades, Gonçalves compartilhou espaço com outras mulheres negras para discutir o impacto da rede de escritoras no mercado literário. Ela citou Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista negra do Brasil, e lamentou que até 2006, apenas oito mulheres negras haviam publicado romances no país, indicando a persistente lacuna e a dívida da sociedade com essas vozes. A escritora celebrou a maior visibilidade de autores negros nas últimas duas décadas, que impulsionou mudanças no mercado editorial e quebrou a visão de literatura panfletária, mencionando nomes como Jefferson Tenório e Conceição Evaristo.

A jornalista Waleska Barbosa, mediadora da conversa e idealizadora de um coletivo de escritoras negras no DF, reconheceu os avanços no mercado editorial, mas alertou para os limites e contradições, como o alto custo de publicação, circulação e distribuição, além de episódios de racismo que afetam escritores negros. Ela citou o caso da escritora Lilia Guerra, acusada de roubo na Flip, e as experiências cotidianas de racismo vividas por Conceição Evaristo, para ilustrar a permanência desses desafios no cenário literário.

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