CEO da OpenAI Sam Altman depõe contra Elon Musk em julgamento
O julgamento entre Elon Musk e a OpenAI, que discute a missão original da empresa criadora do ChatGPT, entrou em sua terceira semana com o CEO Sam Altman prestando depoimento. Na terça-feira (12), Altman depôs por cerca de quatro horas em um tribunal federal em Oakland, na Califórnia, negando ter traído os objetivos da organização e acusando Musk de ter abandonado a missão inicialmente proposta.
A decisão do júri, de caráter consultivo, é esperada para os próximos dias, cabendo à juíza Yvonne Gonzalez Rogers a palavra final sobre eventuais punições. Para o professor do Insper e consultor de IA, Pedro Burgos, a estratégia da acusação tem se concentrado em atacar a personalidade de Altman, buscando caracterizá-lo como um líder pouco confiável.
Burgos avalia que esse foco demonstra uma fragilidade no argumento principal de Musk, de que a transformação da OpenAI em uma empresa com fins lucrativos traiu o “charitable trust” (fundo de caridade) estabelecido em sua fundação. A OpenAI foi criada em 2015 como uma organização sem fins lucrativos, com o objetivo de desenvolver inteligência artificial geral de forma descentralizada, especialmente após a aquisição do DeepMind pelo Google em 2014. Musk foi um dos principais financiadores iniciais, com doações de US$ 38 milhões.
O professor aponta que documentos apresentados no julgamento indicam que Musk estava ciente da necessidade de mudança no modelo de negócios. “Tem provas abundantes de que não foi uma surpresa para ele que a empresa uma hora ia ter que mudar”, afirmou Burgos. Altman corroborou essa visão em seu depoimento, revelando que Musk chegou a solicitar 90% do capital da empresa em determinado momento, buscando “sempre uma maioria”, segundo o CEO.
Musk também teria proposto a fusão da OpenAI com a Tesla. O processo judicial possui duas fases distintas: o júri decide primeiro sobre as acusações de violação da missão sem fins lucrativos e enriquecimento ilícito dos fundadores. Posteriormente, a juíza definirá a reparação, que pode variar de multas financeiras à destituição de Altman e Greg Brockman de suas lideranças na empresa.
Burgos considera improvável que o júri aceite as duas acusações, mas ressalta que, em um cenário extremo, o resultado “seria uma hecatombe para o mundo da inteligência artificial”. A OpenAI criou, em 2026, uma fundação para o avanço da IA com um aporte inicial de aproximadamente US$ 20 bilhões, uma possível peça na estratégia de defesa para demonstrar compromisso com a missão original.
A questão central, embora complexa, é a compatibilidade entre lucro e responsabilidade no setor. Burgos aponta que o mercado, atualmente, tende a recompensar a cautela. “Existe uma demanda por modelos seguros e por empresas responsáveis”, disse. Contudo, o aumento da concorrência global, incluindo laboratórios chineses com prioridades distintas, torna essa equação cada vez mais instável.
