Jovem quilombola tem primeira experiência de voto ao lado do avô
Aos 16 anos, a estudante Thauany Silva fará sua estreia nas urnas em 4 de outubro, acompanhando o avô, o agricultor Joaquim Moreira, de 87 anos, que é o morador mais velho da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO). Ambos aguardam a data com expectativa e os títulos de eleitor guardados.
O eleitorado quilombola apresentou um crescimento expressivo, quase dobrando entre as eleições municipais de 2024 e o pleito de 2026. Os números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram um salto de 95.409 para 188.371 eleitores identificados como quilombolas. Em Goiás, o aumento foi de 3.625 para 5.394 eleitores.
Mayara Silva, mãe de Thauany, reforça a importância do acompanhamento das decisões políticas, que impactam diretamente a vida de sua comunidade. “Não tem como fechar os olhos para o fato que tudo é política”, afirma. Thauany compartilha desse sentimento, argumentando que o voto é um ato de cuidado com o futuro coletivo.
A universitária de direito Franciele Silva, 27 anos, nascida na comunidade Rio dos Macacos, em Simões Filho (BA), compartilha o entusiasmo pela participação democrática. Desde que completou 18 anos, ela tem o título de eleitor e, com o estudo do direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA), tem levado mais informações sobre a defesa do território e dos direitos para sua comunidade.
O Nordeste concentra a maior parte do eleitorado quilombola do país. Em 2024, a região contava com 51.633 eleitores, número que deverá alcançar 95.901 em 2026. Segundo o TSE, essa região representa mais da metade do total de eleitores quilombolas no Brasil.
Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), atribui o crescimento do eleitorado quilombola à ampliação da visibilidade e da conscientização política. Ela destaca o papel das comunidades como guardiãs da natureza e a importância de defender pautas específicas, como a titulação de territórios, através do voto.
Nunes ressalta a necessidade de campanhas estatais para estimular o voto e a candidatura de quilombolas, lembrando o contexto de vulnerabilidade e ameaças que algumas lideranças enfrentam. Ela própria necessitou de programa de proteção após sofrer uma ameaça em 2020, quando era candidata.
O educador de alfabetização financeira Rafael Costa, 32 anos, da comunidade Mesquita, em Cidade Ocidental (GO), observa um aumento no interesse por temas de participação e representatividade política nas comunidades. Ele enfatiza que o conhecimento sobre políticas públicas e a defesa contra desinformação e golpes financeiros são essenciais para o fortalecimento político.

