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Palavras Africanas: Dengo, Axé e Samba no Cotidiano Brasileiro

Palavras Africanas: Dengo, Axé e Samba no Cotidiano Brasileiro

Palavras Africanas: Dengo, Axé e Samba no Cotidiano Brasileiro

O vocabulário brasileiro é enriquecido diariamente por palavras de origem africana, especialmente dos troncos linguísticos banto e iorubá. Esses termos designam desde alimentos e sentimentos até partes do corpo e elementos culturais, demonstrando a profunda influência africana na língua falada no Brasil. O dia 25 de maio, Dia da África, celebrado em referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963, serve como um lembrete da rica herança cultural compartilhada.

Especialistas como o babalaô Ivanir dos Santos, pedagogo e doutor em História Comparada pela UFRJ, e o filólogo Ricardo Stavola Cavaliere, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), destacam a amplitude dessa influência. Cavaliere aponta que o português do Brasil incorpora termos de diversas áreas, como culinária (“vatapá”, “dendê”, “moqueca”, “farofa”), música (“berimbau”, “cuíca”) e fauna (“chimpanzé”, “camundongo”).

Algumas palavras, como “samba”, sofreram alteração semântica, passando de um tipo de dança a um gênero musical. Outras, como “dengo” (carinho, afeto) e “caçula” (filho mais novo), evidenciam a presença de mulheres escravizadas nas atividades domésticas, especialmente a partir do Primeiro Império. Inicialmente, as línguas quimbundo, umbundo e quicongo foram as principais fontes, com a gramática do quimbundo publicada em 1697 pelo padre jesuíta Pedro Dias para facilitar o aprendizado.

A partir do século 18, com o aumento do tráfico de iorubás e nagôs, palavras desse tronco linguístico se tornaram comuns, especialmente na “língua de santo” do candomblé, como “orixá”, “babalorixá” e “Ogum”. O pesquisador angolano Geovany Fernandes-Cattuco, conhecido como Gio Cattuco, contribui ao divulgar a origem de palavras como “dengo” (do kikongo “ndengu”, significando doçura) e “muvuca” (do kikongo “mvuca”, aglomeração). Da língua kimbundu vêm termos como “cambada”, “capanga”, “babá”, “beleléu” e “caçamba”.

O professor Augusto Ribeiro, mestre em Ciências da Educação, enfatiza que a herança africana vai além do vocabulário, moldando a cultura e o modo de falar brasileiro. Expressões como “banguela”, “mandinga”, “moleza”, “xingar”, “malandra”, “quindim” e “miçanga” são exemplos dessa herança viva. Ribeiro considera que “cada palavra é um pedacinho da história, uma resistência que atravessou o tempo e ainda vive na nossa fala”, ressaltando que “falar é também resistir” e que a cultura negra é preservada na fala do brasileiro.

O professor Gilvan Muller de Oliveira, doutor em linguística pela Unicamp, sugere que o Dia da África vá além da referência histórica à escravidão, promovendo uma visão da África contemporânea e das oportunidades de relação bilateral. A mobilização de universidades para apresentar os países africanos atuais e os benefícios dessa relação pode tornar essa tradição mais viva no aprendizado da população brasileira. O 1º Fórum de Reitores Brasil-África, promovido pelo MEC, busca consolidar o ensino superior como eixo central dessa relação.

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