Arte com agulhas e bordados reflete sobre IA em Brasília
A instalação “Bordaduras”, com 530 metros quadrados de vinil adesivo sobre os vidros do Sesi Lab em Brasília, apresenta imagens de agulhas e bordados em ponto de cruz inacabados. A obra, da artista plástica Regina Silveira, de 87 anos, está aberta à visitação desde terça-feira (15) e busca provocar reflexões sobre memória, ofícios femininos e a relação com as tecnologias.
Para Kaliane Martins, 40 anos, agente de portaria no Sesi Lab, a obra trouxe à tona memórias de infância e o aprendizado de bordar com a mãe e a avó. “Aprendi a bordar com a minha mãe e com minha avó. Vi as agulhas [da obra] e me fez recordar”, relatou, comparando a costura de cada dia à própria vida, em entrevista à Agência Brasil. Regina Silveira, professora emérita da USP, contextualiza que os bordados historicamente se ligam à alfabetização feminina no Pré-Renascimento.
Regina Silveira, com extensa carreira internacional, explica que os bordados em sua obra dialogam com padrões gráficos digitais utilizados desde o novo milênio. Os pontos incompletos simbolizam um processo em execução, e a artista considera a obra feminista, ligada à distorção de objetos cotidianos em trabalhos anteriores. A instalação possui um viés provocador e político.
No interior do museu, o painel de LED exibe “Dígito”, obra dos anos 1980 de Regina Silveira. A artista participa do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, que ocorre até domingo (20) no Sesi Lab e no Museu Nacional de Brasília, reunindo 41 artistas em debates sobre a interseção entre arte e tecnologia.
Um dos temas centrais do encontro é a inteligência artificial (IA) na arte. Regina Silveira vê a IA como uma ferramenta que atua com repertórios existentes, podendo auxiliar na expansão, mas não na criação ou pensamento original, que são inerentes ao cérebro humano. “Invenção é própria do cérebro humano. Uma conexão inesperada entre dados que já estavam incorporados. Não é inspiração que cai do céu”, afirma.
A artista defende a conscientização dos jovens sobre o manejo das linguagens tecnológicas. Suzete Venturelli, coordenadora do evento e artista, concorda que a criatividade humana é insubstituível, mas ressalta a importância de educar para o uso da IA, privilegiando a criatividade e a invenção. “É necessário que a obra de arte alfinete a sociedade, inclusive as próprias tecnologias”, pontua.
Gabriel Coelho, 21 anos, professor de circo e palhaço, que também aprendeu a costurar com a mãe, viu na obra um resgate. “Eu arrumo todas as minhas roupas e calçados. Sou palhaço também. Lembrei, quando vi essa imagem, que desestresso com agulha e linha, e fico mais longe do celular.”

