Assassinatos no campo dobram; trabalho escravo em alta
O relatório Conflitos no Campo Brasil, em sua 40ª edição pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), aponta um aumento alarmante nos assassinatos de trabalhadores rurais e povos da terra, das águas e das florestas. No último ano, as vítimas dobraram de 13 para 26. Apesar de uma queda de 28% no número total de ocorrências registradas, passando de 2.207 em 2024 para 1.593 em 2025, a gravidade dos crimes contra a vida se intensificou.
A maior parte dos homicídios, 16 casos, concentrou-se na Amazônia Legal, com destaque para Pará (sete), Rondônia (sete) e Amazonas (dois). A CPT atribui este cenário ao fortalecimento de um “consórcio entre grilagem, crime organizado, setores do Estado, além de setores privados”, que atuam conjuntamente na busca por terras públicas e áreas protegidas. Os fazendeiros figuram como os principais agentes envolvidos, sendo responsáveis por 20 dos 26 assassinatos, atuando como mandantes ou executores.
Outras formas de violência também registraram crescimento expressivo entre 2024 e 2025: prisões saltaram de 71 para 111, casos de humilhação de cinco para 142, e cárcere privado de um para 105. Segundo o documentalista Gustavo Arruda, do Cedoc/CPT, a alta nos casos de humilhação e cárcere se deve à ação arbitrária da Polícia Militar de Rondônia durante a Operação Godos, que desmobilizou cerca de 100 famílias sem-terra. O aumento nas prisões é reflexo de ações pontuais de forças estaduais, como a prisão de 24 povos originários na Bahia e perseguições a integrantes da Liga dos Camponeses Pobres em Rondônia.
Quando analisados todos os tipos de conflitos, a violência por terra lidera com 75% dos casos (1.186), seguida por conflitos trabalhistas (10% ou 159), conflitos pela água (9% ou 148), e acampamentos/ocupações/retomadas (6% ou 100). Os principais casos de violência na terra incluem contaminação por agrotóxicos (127), invasão (193) e pistolagem (113), tendo como principais vítimas povos indígenas (258), posseiros (248), quilombolas (244) e povos sem-terra (153). Os fazendeiros foram os maiores causadores de violência no eixo terra (515 casos).
O relatório também evidencia um aumento de 5% nos casos de trabalho escravo ou análogo à escravidão, totalizando 159 ocorrências em 2025, e um crescimento de 23% no número de trabalhadores resgatados nesta condição, alcançando 1.991. Um caso notório ocorreu na construção de uma usina em Porto Alegre do Norte (MT), onde 586 pessoas foram resgatadas após serem aliciadas em condições precárias de moradia, alimentação e saneamento. As atividades econômicas com maior número de resgates foram construção de usina (586), lavouras (479), cana-de-açúcar (253), mineração (170) e pecuária (154), setores historicamente associados a registros de trabalho escravo.
Em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), a CPT lançou o Observatório Socioambiental, uma iniciativa que compila dados de violações de direitos humanos, desmatamento e expansão da agricultura industrial no Brasil entre 1980 e 2023. O objetivo é disponibilizar em um ambiente digital interativo informações cruzadas por estados e municípios, visualizando a relação entre o avanço da produção de commodities e os conflitos socioambientais no país.
