Conflitos agrários sobem e assassinatos no campo caem no Brasil
O Brasil registrou um aumento nos conflitos agrários durante o primeiro semestre deste ano, enquanto o número de assassinatos no campo diminuiu em comparação com o mesmo período do ano anterior. Os dados foram divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que atribui as tendências à crescente mercantilização e financeirização da terra no país.
Nos primeiros seis meses de 2026, a CPT contabilizou seis assassinatos no campo, uma queda significativa em relação aos 27 casos registrados entre janeiro e junho de 2025. Em contrapartida, o número de conflitos agrários aumentou de 798 para 841 no mesmo intervalo.
O Maranhão liderou o ranking de estados com mais conflitos no campo nos seis primeiros meses de 2026, totalizando 156 ocorrências. Em seguida, aparecem Pará com 90 casos, Bahia com 85, e Rondônia e Amazonas com 63 casos cada.
Os dados referentes ao primeiro semestre de 2026 fornecerão subsídios para a avaliação das tendências dos conflitos no campo ao longo do ano e integrarão o relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, a ser lançado em 2027. As informações são coletadas por agentes da CPT em todo o país, além de notícias veiculadas pela imprensa e divulgações de órgãos públicos e organizações parceiras.
A CPT observa que, apesar da redução nos assassinatos, a ocorrência de massacres – quando mais de uma pessoa é assassinada – manteve-se como uma característica preocupante, similar ao ano anterior. Cecília Gomes, representante da CPT, destacou a intensificação da mercantilização e financeirização da terra, impulsionada por fundos de pensão e o interesse em áreas ricas em minerais, frequentemente ocupadas por comunidades tradicionais e camponesas.
“Toda essa corrida pela terra e pelo que tem na terra acontece cada vez mais no território brasileiro, no sentido da financeirização da terra”, afirmou Cecília Gomes, denunciando a situação.
Dentre os casos registrados, os conflitos por terra foram predominantes, totalizando 711 ocorrências, seguidos por conflitos por água (100 casos) e trabalho escravo rural (30 casos). Os conflitos por terra englobam violências e resistências relacionadas a ocupações e acampamentos. As violências aumentaram de 584 para 663, enquanto as resistências caíram de 66 para 48 casos, seguindo uma tendência de queda na última década.
O Maranhão também concentra a maior parte dos conflitos por terra, com 153 casos, seguido pela Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54). O Amazonas se destacou com um aumento de 140% nas ocorrências em comparação com o mesmo período de 2025, passando de 37 para 52 casos.
A contaminação por agrotóxicos foi a forma mais frequente de violência em conflitos por terra, com um aumento de 98 para 169 casos. Seguiram-se invasões de territórios (de 96 para 109), desmatamento ilegal (de 67 para 107) e ameaças de despejo (de 63 para 70). A CPT atribui essas violências à expansão do agronegócio, com destaque para o estado do Maranhão. Cecília Gomes ressaltou a gravidade da violência por agrotóxicos, descrevendo-os como armas químicas que causam danos lentos e progressivos à saúde.
Os conflitos pela água foram registrados em 20 estados, com um aumento expressivo de 47 para 100 ocorrências em relação ao primeiro semestre do ano anterior. O Pará liderou com 16 casos, seguido por Minas Gerais (11), Amazonas (10) e Mato Grosso (10). No Pará, a luta dos povos indígenas contra a privatização de rios pelo governo federal e a ação de garimpeiros, bem como a atuação de mineradoras contra ribeirinhos, foram destacadas.
A luta indígena contra a privatização dos rios levou à revogação do Decreto nº 12.600/2025 em fevereiro de 2026, medida que incluía hidrovias nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.
As ocorrências de trabalho escravo rural apresentaram queda, com 30 registros no primeiro semestre de 2026, contra 101 no mesmo período de 2025. O número de trabalhadores resgatados também diminuiu, de 842 para 355. O maior contingente de resgates ocorreu no primeiro semestre de 2023, com 1.395 pessoas libertadas.
São Paulo se destacou com o maior número de trabalhadores resgatados (148) e casos registrados (cinco), sendo três deles em atividades de plantio e corte de cana-de-açúcar. Dos seis assassinatos registrados até junho, destacam-se o massacre de três posseiras em Lábrea (AM), dois indígenas assassinados em Roraima e Mato Grosso do Sul, e um trabalhador rural sem-terra, com idades entre 14 e 45 anos.
Os números de casos e vítimas de violência no campo aumentaram, passando de 418 para 588 e de 308 para 497, respectivamente. A contaminação por minérios foi a violência com maior incidência (195 casos), registrada em Jacareacanga (PA) devido ao garimpo ilegal de ouro na Bacia do Rio Tapajós, afetando a Terra Indígena Munduruku. A contaminação por agrotóxicos (132 casos contra 10 no ano anterior), a criminalização (51 contra 46) e ferimentos (42 contra 26) também apresentaram aumento.
As principais vítimas desses conflitos são povos indígenas, trabalhadores e trabalhadoras sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.
As manifestações, embora não computadas como conflitos diretos, representam uma importante estratégia de resistência das comunidades para denunciar violências e lutar por direitos. Em 2026, foram registradas 284 manifestações, um aumento em relação às 253 do primeiro semestre de 2025, incluindo atos públicos, marchas, protestos e bloqueios de rodovias. As principais reivindicações incluem demarcação de terras indígenas, combate aos agrotóxicos e à mineração, e defesa da água e melhores condições de trabalho.
Cecília Gomes enfatizou que a CPT atua não apenas para denunciar, mas para evidenciar as formas de resistência das comunidades contra a mercantilização e financeirização da terra. “Ela colabora e está junto das comunidades nesses enfrentamentos. A CPT não só documenta. Ela está lá auxiliando nas vivências com esses povos e comunidades na resistência”, declarou.
Adicionalmente, a CPT trabalha na construção de incidências e políticas públicas voltadas para o campo, elaborando documentos que visam fortalecer a atuação junto a esses povos e comunidades.

