Jogadores argentinos erguem faixa sobre Malvinas após vitória
A imagem de jogadores da Argentina erguendo uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas”, após a vitória da seleção sobre a Inglaterra por 2 a 1, percorreu o mundo. Pelas regras da Federação Internacional de Futebol (Fifa), o ato, na semifinal da Copa do Mundo, pode gerar punições, mas fora dos gramados reacendeu a discussão sobre a posse do arquipélago ultramarino, reivindicado pela Argentina, mas administrado pela Grã-Bretanha. Neste domingo (19), a seleção argentina busca o seu quarto título mundial em jogo único contra a seleção espanhola.
O ato dos jogadores da albiceleste se assemelha ao do técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, que ergueu uma bandeira da Palestina. Ele não foi punido, no entanto, porque a seleção palestina de futebol é afiliada à Fifa. As Ilhas Malvinas/Falklands são um território a sudoeste do Oceano Atlântico, a 500 quilômetros da costa argentina, administrado pelo Reino Unido. Objeto de disputa entre os dois países há décadas, a Argentina considera o arquipélago parte de seu território e mantém uma reivindicação de soberania.
As Nações Unidas (ONU) defendem uma solução pacífica para o conflito no âmbito das ações de descolonização. Em 1982, os dois países se enfrentaram em uma guerra de 74 dias que deixou centenas de mortos. A maioria soldados argentinos, sem condições de enfrentar o poderio bélico britânico. Derrotada, a Argentina trata a questão como uma “ferida aberta”. Na Copa do Mundo de 1986, quatro anos depois da guerra, a vitória da albiceleste sobre a Inglaterra, por 2 x 1, foi encarada como uma revanche, com dois gols de Diego Maradona.
Ainda hoje, as Ilhas Malvinas estão nos cânticos das torcidas e lembradas em campeonatos, diz o cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria. “A torcida da seleção traz essas lembranças, assim como os clubes locais. Todos fazem alguma menção à questão das Malvinas”, disse Gabiati. Em artigo no jornal The Guardian, o renomado colunista Simon Jenkins pediu uma negociação entre os países. “Nenhum dos territórios britânicos da era imperial tem o direito eterno de permanecer como está, muito menos um que custe aos contribuintes mais de 60 milhões de libras anuais.”
O embaixador Guillermo Carmona foi secretário das Malvinas do governo argentino até 2023, no governo de Alberto Fernández, e buscou soluções por meio do multilateralismo, com apoio da ONU. Ele concorda que a gestão das Malvinas pelo Reino Unido é anacrônica. “Isso não pode continuar indefinidamente”, afirmou. Para ele, a abertura da faixa pelos jogadores foi um ato de “soft power”, para destravar as negociações. A diplomata Alicia Castro acrescenta que a abertura da faixa demonstrou que “a luta contra o colonialismo permanece um imperativo ético”.
Qualquer punição aos jogadores, conforme solicitado por autoridades britânicas, na avaliação dos entrevistados, é hipocrisia. Para eles, a Fifa aplica as regras de acordo com a conveniência. A entidade máxima do futebol atua como um instrumento do norte global para desmerecer manifestações de soberania de nações, como ocorreu quando vetou à camisa do Haiti na Copa. A Fifa explicou que, no caso de manifestações políticas durante torneios, o procedimento padrão é acionar o Comitê Disciplinar Independente, que já avalia os relatórios da partida.
Em 2014, a federação multou a Associação do Futebol Argentino (AFA) em US$ 33 mil depois que seus jogadores exibiram uma faixa com a mesma mensagem, antes de um amistoso contra a Eslovênia. O presidente Javier Milei disse que compreende os sentimentos dos jogadores e que “estão presente em todos os argentinos”. “As Malvinas são argentinas e nós vamos recuperá-las”, disse, citando que usará apenas as vias diplomáticas.
Desde o chamado “descobrimento”, as Ilhas Malvinas pertenciam à Espanha. Após a independência argentina da ex-colônia, em 1816, o país considerava que tinha herdado o arquipélago. No entanto, a frágil administração local foi expulsa pelos ingleses, em 1833, que povoaram o território. A Grã-Bretanha queria a passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico e instalar ali uma base militar. Hoje, o local também é disputado por suas riquezas minerais, como o petróleo.
A Argentina, no entanto, rejeita a soberania britânica, que trata as ilhas como um território ultramarino. O tópico voltou a campo no governo Perón (1946-1955), que era um nacionalista. Mais recentemente, em junho de 2026, a ONU, por meio Comitê de Descolonização, reiterou a necessidade de uma solução pacífica e negociada sobre o território, como vem fazendo desde 1989.
