Mãe relembra filho morto em Chacina: “Pagaram por guerra que não era deles”
No Dia das Mães de 2006, Débora Maria da Silva celebrava com a família na Baixada Santista. Quatro dias após seu aniversário de 48 anos, a alegria deu lugar à tragédia com o assassinato de seu filho mais velho, Edson Rogério Silva dos Santos, um gari de 29 anos. Este evento trágico ocorreu em meio aos Crimes de Maio, uma série de ataques coordenados pelo PCC e reações violentas de policiais e grupos de extermínio entre 12 e 21 de maio, que resultaram na morte de mais de 500 pessoas em São Paulo.
Edson Rogério era um jovem negro da periferia, parte das inúmeras vítimas desses episódios. Débora recorda que a celebração do Dia das Mães naquele ano foi ofuscada pela cirurgia dentária de seu filho, realizada no dia 10 de maio. No domingo seguinte, a família comemorou com um bolo e churrasco, despedindo-se de Edson Rogério que precisava trabalhar cedo na segunda-feira. Ele foi morto a tiros enquanto abastecia sua moto em um posto de gasolina, após ter parado para pedir ajuda pois sua moto estava sem gasolina. Uma testemunha relatou a Débora que viu duas viaturas abordando seu filho no momento em que tentou socorrê-lo.
Débora descreve a dor insuportável de receber o corpo do filho com cinco perfurações de bala, um em cada pulmão, um no coração e dois nos glúteos, indicando morte instantânea. Aos 20 anos da tragédia, Débora se depara com a proximidade da prescrição do crime de seu filho, intensificando sua angústia, especialmente por coincidir com seu aniversário e o Dia das Mães. A fundação do movimento Mães de Maio, após a perda de Edson Rogério, tornou-se um marco na luta por justiça, memória e contra a violência estatal.
O movimento Mães de Maio, em parceria com a organização Conectas Direitos Humanos, enviou um apelo urgente à ONU denunciando a omissão do Estado brasileiro nos Crimes de Maio. As entidades destacam que nenhuma execução foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e as famílias das vítimas não receberam reparação. Débora afirma que seus filhos foram vítimas de um terrorismo de Estado, uma retaliação onde pagaram por uma guerra que não lhes pertencia, e que a impunidade é o fator que mais mata as mães.
Vinte anos após os massacres, Débora e outras mães continuam a luta por memória, justiça e um país menos violento, observando que o modus operandi dos crimes continua o mesmo. Elas buscam parir uma nova sociedade, onde seus filhos não sejam rotulados como suspeitos pelo “Estado aparelh ado” desde a ditadura. A história de Débora e das demais mães será retratada no programa “Caminhos da Reportagem”, com o episódio “Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas”, a ser exibido na TV Brasil.
