Mães de desaparecidos lutam por memória e justiça
A busca por filhos desaparecidos transcende o tempo e o espaço para mães que lutam diariamente por visibilidade, memória e respeito. Elas vivenciam o sobressalto de noites insones e o silêncio doloroso de uma ausência que desafia a tradução, um sentimento intraduzível que se torna a sua realidade.
Mulheres que buscam seus filhos, desaparecidos em datas recentes ou há décadas, nutrem e exigem esperança. Em 2025, 84.760 pessoas desapareceram no Brasil, um número que ressalta a urgência de atenção e ação. Em datas como o Dia das Mães, elas anseiam por mais luzes neste labirinto que se tornou suas vidas, sonhando com o reencontro que traria o sentido de volta.
A jornada as levou a becos escuros, à indiferença em delegacias e ao preconceito nas ruas. Dores tão profundas que inspiram a ficção, como a personagem Kehinde em “Um Defeito de Cor” de Ana Maria Gonçalves, ou Rita Preta em “Coração sem Medo” de Itamar Vieira Junior, em suas buscas desesperadas por seus filhos desaparecidos.
A dor real se multiplica, como no caso de Clarice Cardoso, de 27 anos, moradora de Bacabal (MA), cujos filhos Ágatha Isabelle, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, desapareceram em janeiro. Enquanto a investigação policial aponta para um possível suspeito, Clarice conta com o apoio do marido Márcio e do filho mais velho, André, de 9 anos, que compreende a situação.
Clarice relata a rotina de busca por solidariedade e informações, enfrentando a distância da delegacia e comentários maldosos, que ela admite poderem conter preconceito e racismo. Sua mãe, que sofreu um acidente de moto durante uma viagem para buscar informações, agrava a situação de Clarice, que vê sua vida em suspenso.
Formar redes de apoio tem sido crucial. Ivanise Espiridião, de 63 anos, procura sua filha Fabiana desde 1995. Para aliviar o sofrimento e criar uma rede nacional, fundou o grupo Mães da Sé, que em 2026 completará 30 anos sem a filha. O Dia das Mães traz uma mistura de sentimentos, celebrando os filhos presentes e sentindo a tristeza pela ausência.
O grupo Mães da Sé, fundado há 30 anos, reúne hoje mais de seis mil mães no país. A tecnologia, como o aplicativo Family Faces com reconhecimento facial, auxilia na localização de desaparecidos. Ivanise transformou sua dor em ativismo, orientando que a notificação de desaparecimento deve ser feita imediatamente, conforme a Lei nº 11.259, que determina a atuação policial imediata para crianças e adolescentes.
O apoio familiar é vital, assim como o suporte psicológico profissional, diante de transtornos como depressão, pânico e ansiedade. A psicóloga Melânia Barbosa destaca a importância do poder público em oferecer suporte emocional e o papel dos entes próximos em acolher e escutar, sem a necessidade de respostas prontas. A pesquisadora ressalta que, culturalmente, mulheres são ligadas ao cuidado, o que as mantém vinculadas aos seus, mesmo desaparecidos.
Lucineide Damasceno, integrante do Mães da Sé, fundou a ONG Abrace para dar suporte a familiares necessitados. Seu filho Felipe desapareceu em 2008. Após uma crise de pânico em 2013, ela se tornou ativista, encontrando amparo no grupo e sentindo-se compreendida na dor das outras mães. A esperança de Felipe bater no portão a mantém resiliente.
Lucineide, apesar da dor, se esforça para que seus outros filhos e netos entendam que eles são especiais e parte de sua vida. Ela guarda presentes de Felipe há duas décadas, embaixo da árvore de Natal, na esperança de que um dia ele volte e receba os mimos. A espera continua, por notícias, abraços e um apelo para que ninguém se esqueça.
