Mercúrio em gestantes e bebês Munduruku: saúde em risco
Mulheres gestantes da Terra Indígena Munduruku, no Pará, apresentam níveis de mercúrio no corpo quatro vezes e meio acima do limite seguro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O limite é de 2 microgramas do metal por grama de cabelo (µg/g), mas os níveis encontrados chegam a uma média de 9,1 µg/g. Esses dados preliminares fazem parte do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).
Os resultados foram apresentados por Paulo Basta, coordenador da pesquisa, durante a Rio Nature & Climate Week. Dos 195 mulheres monitoradas, 97% ultrapassam o nível seguro de mercúrio. Em um caso extremo, uma mulher registrou 39,9 µg/g, 20 vezes o limite tolerável. Dos 134 bebês que já nasceram, cerca de 90% apresentam contaminação, com média de 5,8 µg/g, três vezes acima do limite seguro. Um caso extremo em bebê chegou a 30,8 µg/g.
O mercúrio se converte em uma neurotoxina que causa lesões irreversíveis no sistema nervoso central. O pesquisador Paulo Basta aponta para um aumento de crianças nascendo com doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas, suspeitas de estarem ligadas à contaminação. A pesquisa também destacou que o distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós foi o que mais demandou cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde.
Alessandra Korap Munduruku, liderança Munduruku, relatou a comoção após a divulgação dos primeiros resultados em 2022. O estudo inicial, monitorando todas as idades, começou em 2019 em três aldeias da terra Sawré Muybu. A região é afetada há décadas pelo garimpo ilegal de ouro, onde o mercúrio é usado para separar o metal da terra, contaminando rios e o consumo de peixes pelos humanos.
A liderança ressalta a dificuldade do povo Munduruku em encontrar alternativas alimentares, já que o peixe é a principal fonte de sustento e não há opções de compra de outras carnes como na cidade. Ela questiona o modelo de progresso que leva à destruição de rios, florestas e à expulsão de povos tradicionais, afirmando que a carne indígena parece ter menos valor. Cerca de 92% da área garimpada no Brasil está na Amazônia, sendo 85% para extração de ouro.
O garimpo ilegal traz impactos socioambientais como desmatamento, violência, trabalho escravo e sonegação de impostos. Um estudo do Greenpeace revelou como Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) são usadas para venda de ouro ilegal, afetando terras indígenas e áreas protegidas. A atividade, mesmo regulamentada pelo Código de Mineração e leis específicas, sofre com flexibilizações indevidas de licenciamento ambiental e falta de transparência.
A promotora do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), Eliane Moreira, reforça a responsabilidade dos órgãos públicos em todos os níveis no ciclo do garimpo e da contaminação por mercúrio de povos indígenas.
