Moacir Santos: Centenário de um Gênio Musical Brasileiro
Compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro, Moacir Santos completaria 100 anos em 26 de julho. Sua obra, marcada pela fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz, ainda busca o merecido reconhecimento no Brasil. A canção ‘Nanã’, que homenageia a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras, é uma de suas composições mais conhecidas.
Nascido em Serra Talhada, Pernambuco, Moacir Santos aprendeu a tocar instrumentos de banda marcial na infância. Após fugir de casa na adolescência, rodou o Nordeste com orquestras de circo e bandas militares. Allan Abbadia, pesquisador e multi-instrumentista, destaca a importância das bandas na formação musical do país, tradição da qual Moacir provém e que enriqueceu com estudos aprofundados.
Em João Pessoa, regeu a banda da Rádio Tabajara e, posteriormente, atuou como saxofonista na Rádio Nacional do Rio de Janeiro a partir de 1948, tornando-se arranjador da emissora três anos depois. Foi aluno de César Guerra-Peixe e professor de renomados músicos como Baden Powell, João Donato e Airto Moreira.
Andrea Ernest Dias, autora de livro sobre o músico, explica que Moacir construiu uma identidade sonora única através de pesquisas em teoria musical. Na década de 1960, arranjou álbuns para Elizeth Cardoso e Baden Powell, além de compor trilhas sonoras. Sua obra-prima, o álbum ‘Coisas’ (1965), exemplifica a genialidade na fusão de ritmos afro-brasileiros com sopros de jazz.
Em 1967, Moacir Santos mudou-se para os Estados Unidos, onde continuou lecionando e compondo trilhas para cinema, trabalhando com maestros como Henry Mancini e Lalo Schifrin. Na década de 1970, lançou álbuns pela Blue Note, incluindo ‘Maestro’, indicado ao Grammy. Neste trabalho, ele introduziu o ‘mojo’, um sistema rítmico pessoal e inovador.
Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no Free Jazz Festival. Seu trabalho foi revisitado no projeto ‘Ouro Negro’, com participações de Milton Nascimento e Gilberto Gil. Allan Abbadia descreve sua obra como fruto de uma genialidade e intelectualidade que unem a cultura afro-brasileira à música erudita, sem cair no folclórico.
Eventos comemorativos de seu centenário já ocorreram e, em agosto, Allan Abbadia ministrará aulas sobre sua obra no Sesc. Moacir Santos deixou um legado à frente de seu tempo, abrindo caminhos para futuras gerações. Ele declarou certa vez que ser reconhecido em seu país era sua maior alegria.

