Museu do Ipiranga expõe história plural do bairro da Liberdade
O Museu do Ipiranga inaugurou a exposição inédita “Liberdade: bairro plural”, que explora a rica história da região por meio das diversas ocupações de grupos étnicos. Embora frequentemente associado à imigração japonesa, o bairro possui uma trajetória mais ampla e complexa, marcada por uma formação que inclui indígenas, portugueses, africanos, afro-brasileiros, italianos, alemães, russos, estadunidenses, chineses, taiwaneses, libaneses, haitianos, guineenses e bolivianos, entre outros. A mostra, com entrada gratuita, estará em cartaz até 31 de janeiro de 2027.
Com curadoria dos historiadores Paulo Garcez Marins, Mônica Raisa Schpun, Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro, a exposição é dividida em três módulos e apresenta a Liberdade como um território em constante transformação. Ao longo de mais de dois séculos, a região foi ocupada e moldada por diferentes grupos, consolidando-se como um espaço de encontros, trocas culturais, permanências, deslocamentos e disputas de memória.
A formação do bairro remonta ao território dos tupis, próximo à Praça da Sé. A partir do século 18, as primeiras ruas surgiram em caminhos indígenas, como o que hoje abriga a Avenida Liberdade. A instalação de brancos portugueses, africanos e afro-brasileiros escravizados ou livres marcou o período. No século 19, a presença de instituições como a forca, o pelourinho, o Hospital da Santa Casa e o Cemitério dos Aflitos associou a região à morte e ao medo, o que tornou os terrenos mais acessíveis para populações de menor renda e novos imigrantes.
A partir das últimas décadas do século 19, a Liberdade atraiu sucessivas ondas de imigrantes, incluindo italianos, portugueses, alemães, japoneses, chineses, taiwaneses, russos, libaneses e norte-americanos, que estabeleceram residências, templos, associações culturais, escolas e jornais. Mais recentemente, o bairro passou a acolher imigrantes e refugiados da África, América Latina e Caribe, o que continua a promover sua diversidade.
A pluralidade da Liberdade não se resume à coexistência de grupos, mas às relações construídas entre eles, consolidando-se como um espaço de convivência, negociação e intercâmbio cultural. A exposição também aborda processos de apagamento e disputa de memória, como a extinção da Frente Negra Brasileira na década de 1930, a destruição do Cemitério dos Aflitos, a demolição da Igreja dos Remédios, a perseguição a famílias japonesas durante a Segunda Guerra Mundial e o confisco da sede da Sociedade Filarmônica Lyra em 1945.
Um tema central abordado é a construção da imagem atual da Liberdade como bairro predominantemente japonês. A mostra propõe uma reflexão sobre como esse processo ampliou a visibilidade da presença nipo-brasileira, ao mesmo tempo em que contribuiu para o apagamento das demais presenças étnicas na memória coletiva.
