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Ditadura militar entregou escola pública ao setor privado

Ditadura militar entregou escola pública ao setor privado

Ditadura militar entregou escola pública ao setor privado

Em 1976, no auge da ditadura militar brasileira, um prédio construído com verba pública para sediar a Escola Politécnica de Foz do Iguaçu foi transferido à iniciativa privada antes de sua inauguração. O imóvel foi entregue ao Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para atender aos filhos de funcionários da hidrelétrica, consolidando um modelo de ensino privado sustentado por recursos federais.

O inspetor de ensino da época, José Kuiava, recorda que recebeu ordens telefônicas de Curitiba, emitidas pelo professor Ernesto Penauer, diretor-geral da Secretaria de Educação, para entregar as chaves do colégio ao proprietário do Anglo-Americano, Ney Suassuna. O contrato foi firmado entre o colégio, Itaipu e o consórcio de empreiteiras Unicon, prevendo o pagamento de 1.000 vagas, embora a demanda tenha atingido mais de 14 mil estudantes no auge das obras.

A professora Denise Sbardelotto, da Unioeste, aponta que o projeto pedagógico beneficiou a empresa de Suassuna, que obteve infraestrutura completa financiada por recursos públicos sem evidências de processo licitatório. Enquanto isso, o impacto populacional da construção da usina, que saltou de 34 mil habitantes em 1970 para 136 mil em 1980, agravou o déficit escolar local e forçou a redução da carga horária na rede municipal.

A gestão do ensino sob a ditadura também reproduziu profundas desigualdades sociais, dividindo os estudantes conforme o poder aquisitivo de seus pais. Enquanto os filhos dos funcionários das vilas A e B frequentavam instalações equipadas com laboratórios e bibliotecas, os alunos da Vila C, filhos de trabalhadores braçais, estudavam em prédios de madeira pré-fabricada. Segundo registros, estes estudantes eram pejorativamente chamados de chuta-barros devido às condições precárias das vias de acesso à escola.

Questionada, a Itaipu Binacional defendeu a qualidade do ensino oferecido pelo Anglo-Americano e justificou a parceria pela necessidade de infraestrutura urgente durante a construção da usina. Ney Suassuna, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, afirmou que a estrutura estatal na época era incapaz de suprir a demanda. O contrato, que garantiu lucros expressivos ao empresário, marcou o início de uma trajetória que expandiu seus negócios educacionais para outros estados e órgãos estatais.

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