Poeta Orides Fontela é homenageada na Flip 2026
A poeta Orides Fontela (1940-1998) dedicou sua vida à escrita, lapidando cada verso com rigor em busca da palavra exata. Reconhecida como uma das grandes poetas brasileiras do século 20, sua obra se destaca pela precisão linguística e profundidade filosófica, condensando reflexões complexas em poucos versos. Durante décadas, contudo, sua poesia permaneceu restrita a círculos acadêmicos, longe do reconhecimento público amplo, apesar de sua qualidade.
Quase 30 anos após sua morte, Orides Fontela é a homenageada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A curadoria de Rita Palmeira visa dar visibilidade ao trabalho da autora, cuja existência se organizou em torno da poesia, promovendo maior acesso público à sua obra. Natural de São João da Boa Vista, interior paulista, Orides formou-se em filosofia e atuou como professora primária e bibliotecária.
A trajetória de Orides Fontela inclui o Prêmio Jabuti em 1983 com o livro Alba e o prêmio da APCA em 1996. Segundo o pesquisador Gustavo de Castro, autor da biografia ‘O Enigma Orides’, a imprensa e a narrativa sobre a poeta frequentemente desviavam o foco de sua obra para aspectos pessoais, criando uma figura quase folclórica. Castro defende que Orides seja reconhecida como uma artista que produziu poesia em meio a extremas dificuldades financeiras, superando rótulos e estereótipos.
De acordo com Castro, o machismo também contribuiu para a invisibilidade de Orides, um reflexo da sociedade brasileira e de sua literatura. Ele lamenta que esses estereótipos, atribuídos a mulheres que desafiam expectativas sociais, ainda persistam. O pesquisador destaca o processo de escrita de Orides, marcado pela reescritura constante e pela busca por unir inspiração e transpiração, transformando ideias poéticas em versos elaborados.
A reedição da biografia de Orides, com trechos inéditos, coincide com sua homenagem na Flip. Gustavo Castro, cujo foco acadêmico são biografias de poetas, ressalta a dedicação ‘radical’ de Orides à poesia, a ponto de sacrificar suas condições materiais. Ele a descreve como uma ‘santa da poesia’, com uma crença pura na palavra poética, embora pondere que tal dedicação total também trouxe um ‘despedaçamento’ em sua vida, levando-a a se esquecer de si mesma.
