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Francy Baniwa: Primeira professora indígena Baniwa na USP

Francy Baniwa: Primeira professora indígena Baniwa na USP

Francy Baniwa: Primeira professora indígena Baniwa na USP

Francineia Bitencourt Fontes, conhecida como Francy Baniwa, quebra barreiras como a primeira mulher indígena a publicar um livro de antropologia no Brasil. Ela também é a primeira mulher Baniwa a obter o título de mestre e, mais recentemente, a primeira a integrar o corpo docente da Universidade de São Paulo (USP).

Antropóloga, escritora e pesquisadora do povo Baniwa, Francy nasceu na comunidade de Assunção, no Baixo Rio Içana, na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM). Os Baniwas estão localizados no Baixo e Médio Içana, e em comunidades do Alto Rio Negro. Segundo o IBGE, o povo Baniwa soma 8.827 pessoas no Brasil.

Engajada no movimento indígena há mais de uma década, Francy pesquisa etnologia indígena, gênero e saberes femininos. Na USP, atuará no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), focando em linguística, acervo e contato com comunidades indígenas.

Em entrevista à Agência Brasil, Francy Baniwa ressaltou que sua nomeação é uma conquista para o coletivo indígena, especialmente para as mulheres, demonstrando que elas podem ocupar qualquer espaço. “Quando um parente entra nesse espaço, ficamos muito felizes porque estamos sendo representados”, afirmou.

Francy, que se identifica como Hipamaalhe, o som da cachoeira, é mãe, artesã, ativista e dona de roça. Ela enfatiza sua origem em uma comunidade indígena e sua formação em uma escola indígena, sendo fruto de uma educação escolar indígena com professores que detêm o conhecimento científico indígena.

Para ela, ser a primeira em diversas áreas representa a resistência contra o silenciamento das vozes femininas e indígenas nas pesquisas. “Nós, como mulheres indígenas, estamos muito longe desses contextos de universidade. A gente veio das comunidades muito maduras, já mães”, comentou, destacando o protagonismo e a capacidade das mulheres de superar desafios e violência.

Sua presença visa mostrar para as meninas e comunidades que é possível ocupar esses espaços, servindo de inspiração. Ela se vê em muitas mulheres e sabe que muitas se veem nela como uma figura forte que superou desafios, incentivada pela comunidade e pela família a prosseguir com os estudos.

Francy se considera uma tradutora entre o mundo da comunidade e o universitário, mediando o diálogo entre saberes tradicionais e acadêmicos. Ela destaca o papel das mulheres como guardiãs e pilares de conhecimento, desde a roça até os rituais e a arte.

Ela acredita que a universidade está, aos poucos, se abrindo para os saberes indígenas, impulsionada pela luta dos movimentos indígenas e de professores parceiros. A presença de indígenas e quilombolas enriquece as pesquisas acadêmicas, embora o choque cultural ao ingressar na cidade seja pesado para quem vem de um contexto coletivo.

Como antropóloga indígena, Francy narra sua própria história, diferentemente de como povos indígenas foram historicamente objetos de estudo. Ela afirma que, embora ainda sejam objetos de estudo, agora ocupam espaços, trazendo suas perspectivas sobre o que é importante pesquisar, como narrativas, afeto e coletividade.

A produção de teses e dissertações por indígenas transforma a oralidade em escrita, fortalecendo a valorização das línguas, rituais e territórios. Ela se vê como uma pesquisadora com um olhar voltado para a parceria e a produção de conhecimento coletivo, fortalecendo assim os territórios e as comunidades.

Sobre o patrimônio indígena, Francy destaca que a repatriação de artefatos tem múltiplos olhares e entendimentos. Para os Baniwas, nem todo objeto necessita retornar, pois são objetos vivos em constante trabalho na comunidade. Contudo, para outras comunidades, o retorno é essencial para o fortalecimento territorial.

Ela vê a curadoria indígena em museus como um diferencial imenso, trazendo narrativas cosmológicas, vivências atuais e a importância dos territórios para as exposições. As exposições indígenas representam não apenas um artista, mas a comunidade, o coletivo e a força da oralidade transformada em imagem e conhecimento.

Francy defende que as exposições e curadorias indígenas mostram a necessidade de um mundo diverso, com múltiplas línguas, origens e umbigos do mundo. A diversidade dos povos indígenas deve ser respeitada no Brasil e no mundo, com a presença de territórios, oralidade e conhecimento.

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